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quinta-feira, 24 de março de 2011

Prólogo

Despediu-se do Velho Ancião, saiu e bateu com a porta, com o maior estrondo que a sua condição o permitia. O alarido dos que o depuseram transformara-se agora num burburinho que o acompanhava como que gravado a fogo na sua mente. Secretamente desejava que todas as ameaças que lhes fizera se tornassem reais naquele segundo, e que aquela corja de infiéis fosse para sempre varrida do mapa. Desejou ter vivido noutros tempos ou noutros locais onde pudesse iniciar uma qualquer ofensiva, que lhe permitisse destruir aquele mau exemplo de gente. Tiraram-lhe o que era dele por direito. Naquele dia ele perdera parte de si.

Enquanto se lembrava das acções que tinham provocado este caos, não conseguia desviar da sua mente a imagem da Imperadora Negra. Sabia que lhe devia muitos favores, mas as contrapartidas que esta lhe apresentara eram demais.O povo, ainda que triste e estúpido, não poderia aguentar mais austeridade, e a preclitante aliança com o exército laranja estava cada vez mais preclitante. O erro crasso fora não consultar os “aliados” nem o “Velho Ancião” antes das negociações. Mas o que ninguém sabia era que tinha sido um erro consentido.

Isso fez com que um sorriso cínico lhe adornasse o rosto. O timming era o correcto, momentos apocalípticos se aproximavam, e sabendo que a culpa não morreria solteira, não tinha qualquer intenção de casar com ela. Não ele que, durante todo este tempo tinha fintado as rasteiras vis dos adversários e esmagado todos os que lhe faziam frente como os vermes que eram. Não ele, que apesar de várias vezes dado como morto, sempre renascera das cinzas. Não ele que mesmo no momento da saída prometera voltar pela porta grande. Esta era uma promessa séria e não como todas as outras que recorrentemente atirava aos cães que o adoravam e as quais não tinha qualquer intenção de cumprir.

Apesar de tirano, o seu governo sempre fora encapotado de uma falsa democracia. E isso era o que o obrigava agora a renunciar. A culpa, essa, ficaria com quem o derrubou, pois ele sabia que a estupidez dominante o iria catapultar de novo para o que era seu de direito. O Prémio, do qual só restavam amostras de vísceras podres, que fosse agora discutido pelos abutres que cantam e dançam na rua.Assim que a música acabasse ele voltaria a emergir como o salvador.

A caminho do púlpito onde iria anunciar formalmente a sua capitulação, pensava no outro pretendente ao trono. Um imberbe míudo que sempre que manejava a espada, acertava invariavelmente no próprio pé, que apesar de ser aclamado por um vasto exército, os seus barões escondiam facas à espera do momento ideal para a cravar.Não, este não merecia um misero grão na ampulheta da sua preocupação. O exército laranja estava dividido e o mais provável seria que já estivesse destroçado no momento do confronto.

Existiam outro piões no tabuleiro. Um, que lhe provocava uma profunda irritação no âmago, era um burgês pseudo-conservador denominado de Mestre das Feiras pela forma como se movimentava pela multidão. “uma serpente” pensou ele nauseado pela imagem formada no seu cérebro.. O objecto do seu pensamento tinha um exército pequeno mas feroz e leal como nenhum. Os seus confrontos na Câmara dos Sábios resultavam sempre para si num amargo desagradavel na boca. Tantas vezes o tirara do sério- a ele- que se considerava um professor na arte da Ágora.
O Mestre das Feiras tinha estado envolvido numa série de escândalos de armamento e despesismo exarcebado, no entanto, e isto ele não percebia porquê, tinha uma influência que poderia representar um perigo real.
Do outro lado existia um grupo de mercenários encabeçados por um Sábio, que sempre que falava parecia aprisionar num ponto final toda a sabedoria do universo. “Um farsante”- pensou ele com desdém- “nada que um punhado de moedas não resolva. E enquanto pensava nisto ia-se questionando sobre o que teria unido aquela gentalha. “Pensam-se mais espertos que os outros, e esse será o seu fim”-vaticinou.

Por último existia um clã, que vinha já de muitos séculos, e por esses séculos fora discursara sempre o mesmo pergaminho em defesa dos pobres e oprimidos. No seu entender eram completamente inofensivos, e ele sabia que lhe dariam apoio se ele precisasse.

“Os dados estão lançados”-  e com este pensamento dirigiu-se ao púlpito, respirou fundo e falou.

2 comentários:

  1. Pois ......mas os dados estão lançados e a Imperatriz Negra foi tomar chá com os Mestre das Freiras e no final soubemos que o Exercito Laranja nada mais é que um caleidoscópio de sombras onde a razão é fogo de água nas trevas.

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